domingo, 6 de março de 2011

A globalização e a obsolência de nação e de política - (A Ruptura Ontológica - Parte 1 de 7)

O debate sobre a globalização parece ter chegado a uma situação de esgotamento. A causa disso não é, no entanto, o fato de que o processo social subjacente tenha se esgotado - ele está apenas no seu começo. São as ideias resultantes da interpretação que perderam o fôlego antes da hora. A corporação dos economistas e cientistas políticos já escreveu bibliotecas inteiras a respeito da explosão das fronteiras econômicas nacionais provocada pela globalização do capital e da consequente diluição do campo de atuação do Estado nacional e da regulação política. Mas as consequências desse reconhecimento ficaram de fora. Quanto mais nitidamente a análise demonstra que nação e política se tornaram obsoletos, tanto mais atávico se revela o discurso político e teórico aos conceitos de política e nação.

O dilema parece consistir no fato de que não há alternativas imanentes para esses conceitos, porque estas alternativas representam condições basilares da ontologia moderna, isto é, elas representam suas próprias categorias. Se se entende que a ontologia é determinada não antropologicamente ou trans-historicamente, mas sim historicamente, então define-se um campo histórico determinado através dos conceitos ou categorias ontológicas da sociabilidade em termos marxistas: uma forma de sociedade ou um modo de vida e de produção. O sistema moderno de produção de mercadoras consiste em uma ontologia histórica desse tipo.

No interior desse campo existem frequentemente alternativas e discussões que se movimentam sempre nas mesmas categorias históricas e ontológicas. A crítica e a superação dessas categorias parecem impensáveis. Assim, é possível inclusive criticar determinada política e substituí-la por outra; mas no interior da ontologia moderna é impossível criticar a política em si mesrna e colocar em seu lugar um outro modo de regulação social. Para isso não se criou ainda conceito algum. Está disponível apenas o conteúdo determinado respectivo, mas não a forma categorial ou o modo de todos os conteúdos.

[...]

Frequentemente, a estas formas categoriais podem ser atribuídas especificidades conteudísticas diferentes; no entanto, a categoria própria ou o modo social correspondente não está jamais à disposição.

Os métodos e recursos disponíveis da moderna ciência social não dão mais conta do reconhecimento analítico de que o processo de globalização torna nação e política obsoletos. Não se trata mais - como até agora - da substituição de um conteúdo que se torna obsoleto por um novo conteúdo na mesma forma social, como a superação do poderio mundial exercido pelos Estados Unidos para um novo bloco de poder euro-asiático ou ainda a política econômica neoliberal pelo retomo ao paradigma keynesiano. Mais do que isso, a globalização questiona o modo político e a forma nacional em si mesmos.

Com isso, a análise corrente afirma mais do que sabe; involuntariamente ela tangencia, de forma geral, o limite da ontologia moderna mediante a visão da perda da capacidade de regulação do Estado nacional e da política. Quando cai uma categoria, caem todas as demais como peças de dominó. Pois a formação histórica do sistema moderno de produção de mercadorias pode apenas existir como um contexto categorial, no qual urna condição básica pressupõe uma outra e as diversas categorias determinam-se mutuamente.

Não se trata também de que a perda de competência da política deixe a economia desassistida ou permita que ela transcorra sem freio; ao contrário, a política se constitui no meio da regulação do sistema moderno de produção de mercadorias, que não pode funcionar economicamente sem esta regulação. Mesmo a globalização, que explode os limites nacionais e destrói a política como forma de regulação, é condicionada, por sua vez, pelo fato de que o "trabalho abstrato" (Marx), como forma da atividade humana produtiva e geradora de valor e da mais-valia, é substituído gradualmente pelo capital material. A consequente "desvalorização do valor" obriga o manegement à racionalização transnacional da produção. Na mesma medida em que o capital material, operacionalizado cientificamente, substitui o trabalho, o capital é "de-substancializado" e a "valorização do valor" (Marx) chega a limites históricos, a "desvalorização" de nação e política é tão-somente uma consequência deste processo.

Original: DER ONTOLOGISCHE BRUCH. Vor dem Beginn einer anderen Weltgeschichte in www.exit-online.org

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