O que parece ser em um primeiro momento uma crise particular da política e de seus limites nacionais é na verdade uma crise da ontologia moderna. Uma tal crise categorial exige como resposta uma critica categorial. Mas para isso não há nenhuma representação ou conceito. Até o presente, toda critica era imanente em suas categorias, relacionava-se apenas a conteúdos determinados, e não a formas e modos ontológicos do sistema moderno de produção de mercadorias. Daí a paralisia atual do pensamento teórico e da ação prática. A administração planetária da crise ontológica não pode pôr fim a diluição em barbárie da sociedade mundial definida nos termos capitalistas. Ao contrário, ela própria se torna parte desta barbárie.
Seria necessário uma ruptura ontológica, diante da qual se atemoriza todavia o discurso global, mesmo aquele da esquerda radical. Em seu lugar predominam ideias regressivas que gostariam de inverter o movimento da roda da história para evitar essa quase impensável ruptura ontológica. Enquanto os hardliners da administração da crise querem suprimir da maioria da humanidade sua condição própria de vida, a maior parte dos críticos da globalização esconde-se idealmente no passado analisando-a apenas superficialmente: retrocedem aos paradigmas de nação, política e regulação keynesiana, que se tornaram reacionários, ou então distanciam-se ainda mais nos ideais de uma sociedade agrária transfigurada. Uma parte integral desta tendência regressiva é o desatino religioso que grassa em todos os círculos culturais e ultrapassa todas as manifestações comparáveis nos fragmentos da história da modernização.
Para formular novamente um pensamento claro e questionar a ontologia como tal seria necessário entender essa ontologia como historicamente determinada. Pois apenas assim torna-se possível voltar o pensamento na direcão de sua superação. As categorias do sistema moderno de produção de mercadorias dos séculos XVI a XVIII passaram a ser consideradas óbvias e apriorísticas. A crise ontológica atual do século XXI pode ser apenas controlada quando a história da formação destas categorias for não apenas iluminada ern detalhe, mas também fundamentalmente reavaliada.
Essa tarefa é, contudo, bloqueada por um aparelhamento ideal, que é tão constitutivo para a modernidade como o contexto categorial de sua reprodução social. O fundamento deste aparelhamento ideal e ideológico em seu caráter ontologicamente afirmativo é constituído pela filosofia do esclarecimento. Todas as modernas teorias são igualmente oriundas desta raiz: o liberalismo, o marxismo, assim como as tendências burguesas e reacionárías contrárias ao esclarecimento e à modernidade. Por esta razão, todas elas são igualmente incapazes de formular a crítica categorial e realizar a ruptura ontológica necessária.
As oposições entre liberalismo, marxismo e conservadorismo, outrora mundialmente inquietantes, baseavam-se sempre em determinados conteúdos sociais, políticos, jurídicos ou ideológicos, mas nunca em formas categoriais e no modo ontológico de sociabilidade. Neste sentido, liberais, marxistas e conservadores ou radicais de direita podiam ser igualmente "patriotas", "políticos", "sujeitos", "universalistas androcêntricos", e "homens de Estado", amantes do "trabalho", do "direito" ou das "finanças". Diferenciavam-se respectivamente apenas através de nuances conteudísticas. Em razão de seu embasamento conjunto no pensamento do esclarecimento, as ideologias da história da modernização aparentemente opostas revelam-se na crise da ontologia moderna como um aparelhamento total ideológico no sentido de uma persistência conjunta e a qualquer preço nesta mesma ontologia.
A constatação que cintila ocasionalmente no discurso pós-moderno desde os anos 80, de que as ideologias de esquerda, direita e liberal teriam se tornado livremente elegíveis, evidencia o fundamento oculto que lhes é comum. Da mesma forma, o neoliberalismo apoderou-se hoje como ideologia de crise do espectro político total de maneira suprapartidária com variações mínimas. O pensamento pós-moderno teria se dado conta dessa livre elegibilidade apenas na forma fenomenológica e superficial, sem questionar criticamente a subjacente ontologia da modernidade. Em lugar disso, desejava driblar o enfrentamento do problema ontológico rejeitando-se todas as teorias relativas a ele como pretensões dogmáticas e totalitárias - como se o problema fosse apenas teórico e não representasse a realidade da forma social de reprodução. Desta maneira, as categorias basilares do sistema de produção de mercadorias não são absolutamente criticadas, mas apenas tiradas de foco sem que se possa, contudo, escapar delas na prática social. A pós-modernidade mostra-se assim como uma parte integral do aparelhamento ideológico total e, da mesma forma, uma derivação da filosofia do esclarecimento, apesar de afirmações em contrário.
O pensamento do esclarecimento, explicitamente, fundou, formulou, consolidou e legitimou ideologicamente as categorias da ontologia moderna que repontavam antes do século XVIII. Por isso, a ruptura ontológica necessária precisa ser acompanhada da crítica radical do esclarecimento e de todas as suas derivações da história da filosofia, da teoria e da ideologia. Ao rejeitar-se o fundamento, rejeita-se também todo o resto. Exatamente nisso consiste a ruptura ontológica.


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