De um lado, as categorias ontológicas da modernidade especificamente históricas foram representadas como se tivessem estado presentes desde sempre. Mesmo o conceito de ontologia foi usado como sinônimo para fatos antropológicos trans-históricos ou não-históricos.
Por isso não se podia mais questionar outras ontologias históricas no decorrer da história, bem como determinar suas especificidades. Ao invés disso, o esclarecimento projetou suas modernas categorias, por ele mesmo constituídas e legitimadas, em todo passado e em todo futuro. Os limites eram dados pelas perguntas: como eram o "trabalho", a "nação", a "política", o "valor", o "mercado", o "dinheiro", o "sujeito" etc. no antigo Egito, entre os celtas ou na Idade Média cristã; ou, ao contrário, que aspecto terão as mesmas categorias no futuro e como serão modificadas? Ao assumir essa caracterização da modernidade nos termos da ontologia, o marxismo pôde. em certo sentido, apenas adjetivar sua "alternativa socialista" como mera nuança conteudística ou regulação no interior da mesma forma social e histórica.
Por outro lado, as sociedades do passado surgiram nessa projeção como categorialmente imperfeitas. O que na verdade eram outras ontologias históricas foi tipificado como "imaturo" em termos categoriais; como ontologias modernas ainda não suficientemente "desenvolvidas" e necessariamente desfiguradas. Também todas as sociedades contemporâneas, ainda não - ou não completamente - compreendidas pela ontologia moderna, foram adaptadas ao mesmo esquema; elas eram vistas como "subdesenvolvidas", "imaturas" e "inferiores". A filosofia da história assim construída no esclarecimento serviu essencialmente como ideologia legitimadora da colonização interna e externa. Em nome dessa filosofia da história e seus esquemas, a submissão da sociedade ao sistema de "valorização do valor" - e também de seu respectivo "trabalho abstrato" com todas as exigências intoleráveis e disciplinamentos - pôde ser propagada como historicamente necessária e como parte de urna mudança para melhor.
O conceito de bárbaro, emprestado das altas culturas agrárias, surgiu corno definição pejorativa da humanidade antiga ou contemporânea, não-capitalista, "barbárie" é entendida corno sinônimo de uma cidadania incipiente no sentido da circulação capitalista (subjetividade de mercado e forma de direito) e, com isso, submissão incipiente à moderna ontologia. Não temos ainda nenhum outro conceito à disposição para caracterizar circunstâncias na sociedade que são destrutivas, violentas e desestabilizadoras do contexto social. Marx já usaria criticamente o conceito de "barbárie" ao relacioná-la tanto à história da formação do sistema de produção de mercadorias mesmo na "acumulação original" quanto à história da desagregação da modernidade nas crises capitalistas. A ruptura com a ontologia moderna, que hoje se apresenta, leva-nos, para além de Marx, a determinar como barbárie e a destruir a partir do fundamento o núcleo da máquina social capitalista, o "trabalho abstrato" e sua composição de disciplinamento interior e administração humana equivocadamente entendida como "civilização".
Essa tarefa da ruptura ontológica é, todavia, complexa e de difícil percepção, uma vez que a filosofia da história que foi produzida pelo esclarecimento legitima-se de maneira paradoxal não apenas afirmativamente, mas também criticamente. O aparelhamento ideológico fundado pelo esclarecimento bloqueia a ruptura ontológica necessária exatamente por ter convivido com esse paradoxo. A crítica liberal-burguesa referiu-se sempre a circunstâncias sociais que impediam a imposição da ontologia moderna. Tanto no sentido da colonização interna quanto no da externa, tratava-se dos resíduos deixados pelas formações agrárias. Entre estes resíduos estavam não apenas as antigas relações de dominação na forma de dependências pessoais, mas também determinadas condições de vida que significavam atritos para os anseios modernos do "trabalho abstrato". Desta forma, foi extinta a maioria dos feriados religiosos para proporcionar um caminho livre para a transformação do tempo de vida em tempo funcional da valorização do capital.
O esclarecimento criticava as formas passadas de dependência pessoal apenas para legitimar novas formas de dependência coisificada do "trabalho abstrato", do mercado e do Estado. Simultaneamente, essa critica comportava traços repressivos porque estava ligada à propaganda da assiduidade abstrata, disciplina e submissão às novas demandas do capitalismo, além de destruir, conjunta mente com a antiga forma de dominação, conquistas humanas universais das relações agrárias. Fundamentalmente, substituiu-se apenas um mal antigo por um novo, em parte ainda pior que aquele. Apesar disso, foi possível para a ideologia liberal do esclarecimento celebrar as relações modernas ainda nascentes como libertação do fardo feudal e representar a si mesma como quem leva a luz às obscuras crendices da Idade Média. A violência feudal era denunciada, enquanto o "trabalho abstrato" da modernidade era imposto aos homens com violência sem precedentes, como expressou Marx. O conceito de critica, em geral, foi identificado pelo liberalismo do esclarecimento com a crítica da sociedade agrária, enquanto a modernidade capitalista, com suas atrocidades, fulgurava como "progresso", ainda que na vida real ela representasse para a grande massa dos homens coisa muito distinta: uma regressão.
Original: DER ONTOLOGISCHE BRUCH. Vor dem Beginn einer anderen Weltgeschichte in www.exit-online.org
Por outro lado, as sociedades do passado surgiram nessa projeção como categorialmente imperfeitas. O que na verdade eram outras ontologias históricas foi tipificado como "imaturo" em termos categoriais; como ontologias modernas ainda não suficientemente "desenvolvidas" e necessariamente desfiguradas. Também todas as sociedades contemporâneas, ainda não - ou não completamente - compreendidas pela ontologia moderna, foram adaptadas ao mesmo esquema; elas eram vistas como "subdesenvolvidas", "imaturas" e "inferiores". A filosofia da história assim construída no esclarecimento serviu essencialmente como ideologia legitimadora da colonização interna e externa. Em nome dessa filosofia da história e seus esquemas, a submissão da sociedade ao sistema de "valorização do valor" - e também de seu respectivo "trabalho abstrato" com todas as exigências intoleráveis e disciplinamentos - pôde ser propagada como historicamente necessária e como parte de urna mudança para melhor.
O conceito de bárbaro, emprestado das altas culturas agrárias, surgiu corno definição pejorativa da humanidade antiga ou contemporânea, não-capitalista, "barbárie" é entendida corno sinônimo de uma cidadania incipiente no sentido da circulação capitalista (subjetividade de mercado e forma de direito) e, com isso, submissão incipiente à moderna ontologia. Não temos ainda nenhum outro conceito à disposição para caracterizar circunstâncias na sociedade que são destrutivas, violentas e desestabilizadoras do contexto social. Marx já usaria criticamente o conceito de "barbárie" ao relacioná-la tanto à história da formação do sistema de produção de mercadorias mesmo na "acumulação original" quanto à história da desagregação da modernidade nas crises capitalistas. A ruptura com a ontologia moderna, que hoje se apresenta, leva-nos, para além de Marx, a determinar como barbárie e a destruir a partir do fundamento o núcleo da máquina social capitalista, o "trabalho abstrato" e sua composição de disciplinamento interior e administração humana equivocadamente entendida como "civilização".
Essa tarefa da ruptura ontológica é, todavia, complexa e de difícil percepção, uma vez que a filosofia da história que foi produzida pelo esclarecimento legitima-se de maneira paradoxal não apenas afirmativamente, mas também criticamente. O aparelhamento ideológico fundado pelo esclarecimento bloqueia a ruptura ontológica necessária exatamente por ter convivido com esse paradoxo. A crítica liberal-burguesa referiu-se sempre a circunstâncias sociais que impediam a imposição da ontologia moderna. Tanto no sentido da colonização interna quanto no da externa, tratava-se dos resíduos deixados pelas formações agrárias. Entre estes resíduos estavam não apenas as antigas relações de dominação na forma de dependências pessoais, mas também determinadas condições de vida que significavam atritos para os anseios modernos do "trabalho abstrato". Desta forma, foi extinta a maioria dos feriados religiosos para proporcionar um caminho livre para a transformação do tempo de vida em tempo funcional da valorização do capital.
O esclarecimento criticava as formas passadas de dependência pessoal apenas para legitimar novas formas de dependência coisificada do "trabalho abstrato", do mercado e do Estado. Simultaneamente, essa critica comportava traços repressivos porque estava ligada à propaganda da assiduidade abstrata, disciplina e submissão às novas demandas do capitalismo, além de destruir, conjunta mente com a antiga forma de dominação, conquistas humanas universais das relações agrárias. Fundamentalmente, substituiu-se apenas um mal antigo por um novo, em parte ainda pior que aquele. Apesar disso, foi possível para a ideologia liberal do esclarecimento celebrar as relações modernas ainda nascentes como libertação do fardo feudal e representar a si mesma como quem leva a luz às obscuras crendices da Idade Média. A violência feudal era denunciada, enquanto o "trabalho abstrato" da modernidade era imposto aos homens com violência sem precedentes, como expressou Marx. O conceito de critica, em geral, foi identificado pelo liberalismo do esclarecimento com a crítica da sociedade agrária, enquanto a modernidade capitalista, com suas atrocidades, fulgurava como "progresso", ainda que na vida real ela representasse para a grande massa dos homens coisa muito distinta: uma regressão.
Original: DER ONTOLOGISCHE BRUCH. Vor dem Beginn einer anderen Weltgeschichte in www.exit-online.org


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