As categorias de trabalho, valor, mercadoria, mercado, a organização do Estado e política, direito, universalismo androcêntrico, sujeito e individualidade abstrata não foram elaboradas apenas no esclarecimento como conceitos de reflexão de uma ontologia da modernidade criados ern processos históricos cegos; o esclarecimento colocou-os em contexto lógico e histórico, no qual eles se tornariam incontestáveis.
As formações sociais agrárias anteriores possuíam também sua própria ontologia histórica; o antigo Egito e a Mesopotâmia, da mesma maneira que a Antiguidade greco-romana, o império chinês, a cultura islâmica e a idade Média cristã. Mas todas essas ontologias eram de certa maneira auto-sufi cientes; elas eram definidas em si mesmas, não precisavam medir-se com nenhuma outra ontologia e não se submetiam à pressão de se justificar. Havia relacionamento com culturas externas da mesma época; estes "outros" foram definidos normalmente como "bárbaros", "incrédulos" ou "pagãos". Mas essas definições não se submetiam a nenhuma sistematização histórico-filosófica e representavam somente limitações acessórias.
O sistema moderno de produção de mercadorias, ao contrário, precisava fundar duplamente sua ontologia diferenciando-se de maneira reflexiva das sociedades agrárias pré-modernas; “reflexivo” não possui aqui uma acepção "critica", mas sim o sentido da legitimação de si mesma. A filosofia do esclarecimento destacou a obrigatoriedade da justificativa de um novo anseio de submissão e uso indevido dos indivíduos que ultrapassava todas as ontologias vigentes até então. As exigências monstruosas colocadas pelo capitalismo, que objetiva transformar o processo de vida imediatamente em uma função de sua lógica de valorização, não poderiam mais fundar-se em uma junção circunstancial de tradições.
De um lado, era necessário dar à ontologia especificamente nova a dignidade de uma relação natural objetíva. Isto é, era necessário transformar explicitamente uma ontologia histórica em uma ontologia trans-histórica e antropológica - simplesmente humana. Por outro lado, disso resultou a necessidade de se estabelecer uma relação lógica entre a ontologia moderna - então trans-historicamente fundamentada - e todas as formações históricas anteriores acrescidas das culturas contemporâneas não capitalistas (ainda predominantemente agrárias).
O resultado não poderia ter sido outro, senão imprimir em todo o passado a marca da inferioridade, isso não representava apenas uma nova visão do mundo, mas sim uma revalorização de todos os valores. Nas sociedades agrárias, os homens compreendiam-se como filhos de seus pais não apenas no sentido ontogenético, mas também no sentido filogenético e histórico e social. Os mais velhos eram celebrados da mesma forma como os antepassados e os heróis míticos do passado. A época de ouro localizava-se no passado e não no futuro; o "ótimo" insuperável era a mítica "primeira vez” e não o "resultado final" de um processo de desempenho.
A filosofia da história desenvolvida no esclarecimento refletia a visão do mundo não de maneira crítica, mas colocando-a de ponta-cabeça. Contemplavam-se então os antepassados e os "homens primevos" no início da espécie como os filhos menores, histórico-filogenéticos, que atingiam a maioridade apenas na ontologia moderna. Todas as situações pregressas pareciam inicialmente "equívocos" da humanidade; transformavam-se então em estágios imperfeitos e imaturos da modernidade, que, por sua vez, passava a representar o ápice e o fim de um processo de amadurecimento - o "fim da história" no sentido ontológico. A história foi então definida pela primeira vez como "evolução" a partir de formas simples ou ontológicas para formas mais elevadas e melhores - como "progresso'' do primitivo até o verdadeiro ser humano da modernidade produtora de mercadorias.
Original: DER ONTOLOGISCHE BRUCH. Vor dem Beginn einer anderen Weltgeschichte in www.exit-online.org
Original: DER ONTOLOGISCHE BRUCH. Vor dem Beginn einer anderen Weltgeschichte in www.exit-online.org


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