
No decorrer do século XIX tardio e, mais ainda, no século XX, o conceito de crítica desfocou-se cada vez mais para as relações capitalistas internas, depois que a sociedade agrária praticamente afundou com suas estruturas de dependência pessoal. Não se tratava naturalmente da moderna ontologia e suas categorias, mas apenas da superação de velhos conteúdos e estruturas através de novas estruturas, baseadas ainda sobre os mesmos fundamentos ontológicos. O sistema de produção de mercadorias, isto é, o capitalismo, não é em sua essência urna situação estática, mas sim um processo dinâmico de transformação e desenvolvimento permanentes; mas é também um processo que ocorre sempre do mesmo modo e nas mesmas categorias formais. É uma luta constante entre o novo e o velho, mas sempre restrita a princípios novos e velhos dentro do próprio capitalismo. Para o conceito liberal da critica, o principio capitalista antigo entra em jogo no lugar do princípio ontológico antigo, ou seja, no lugar das relações sociais agrárias feudais que se tornam irreais. A ruptura ontológica entre a pré-modernidade e a modernidade foi substituída através da permanente ruptura estrutural no interior da modernidade e de sua própria ontologia. Este processo da dinâmica interna é etiquetado com o selo da "modernização". Em nome de uma "modernização da modernidade" a crítica liberal foi formulada desde então em suas próprias categorias.
O processo de "modernização" permanente nas categorias ontológicas da própria modernidade experimenta uma legitimação adicional através de urna critica contrária, complementar e imanente, que se legitima de forma romântica ou reacionária. O "velho" pretensamente bom é conjurado contra o "novo" nefasto, sem que a ontologia moderna, todavia, seja submetida minimamente à critica. Não se trata com isso sequer de uma defesa da ontologia pré-moderna vigente na sociedade agrária. Mais que tudo, o movimento reacionário ou conservador da antimodernidade é igualmente uma invenção da modernidade e uma derivação do próprio esclarecimento.
Trata-se de uma crítica burguesa ao modo de vida burguês, que desde o fim do século XVIII está carregada com imagens de uma sociedade agrária idealizada e com um sistema de valores pseudofeudais - semelhante ao liberalismo contrário, que é carregado com os ideais e o sistema de valores da circulação capitalista ("liberdade" do sujeito autônomo integrado ao mercado etc.) Mas os ideais pseudo-agrários foram formulados desde o início nas categorias da ontologia moderna, e não contra ela. Elas não tinham nada a ver com as ontologias pré-modemas reais; elas eram estranhas a estas. Da mesma forma que o romantismo auxiliou no nascimento da moderna individualidade abstrata, o conservadorismo e suas versões mais radicais do pensamento reacionário tornaram-se propagandistas do nacionalismo moderno e de sua legitimação etno-ideológica racista e anti-semita. No ethos do trabalho protestante e no darwinismo social existia sempre uma reciprocidade de conservadores e reacionários com o liberalismo que remonta às raízes comuns no pensamento do esclarecimento.
Quanto mais empalidecida a referência do pensamento conservador e reacionário à idealizada sociedade agrária, mais nítido precisava ser seu posicionamento no interior da moderna ontologia e de sua dinâmica. Neste contexto, a corrente romântica e reacionária seguiu o mesmo caminho do liberalismo, mas emitindo sinais contrários. De um lado, a crítica liberal, como protetora de um novo capitalismo, defendia uma permanente "modernização da modernidade” nas relações internas do capitalismo; de outro, a crítica reacionária e conservadora, protetora do velho capitalismo, respondia denunciando o sentimento de desmoralização e de desagregação produzido pelo novo capitalismo.
Uma vez que esta polaridade imanente marcava, todavia, o mesmo campo ontológico, sua oposição imanente formava ao mesmo tempo uma blindagem deste campo contra uma possível metacrítica. A partir das demandas intoleráveis aos seres humanos, do mal-estar e do potencial destrutivo do sistema moderno de produção criava-se uma tensão crescente que podia ser permanentemente conduzida ou desviada para a movimentação interna da oposição entre progresso e reação, entre liberalismo e conservadorismo. A destrutividade da modernidade deveria ser salva pelo último impulso de "modernização" (“progresso"), ou, ao contrário, domesticada pelo ativismo à situação presente da modernidade dirigido contra sua própria dinâmica ("conservadorismo" ou "reação"). E exatamente por isso bloqueava-se a crítica da ontologia social e histórica subjacente a esta posição.
A oposição interna à burguesia representada ora pelo liberalismo, ora pelo conservadorismo ou pela reação romântica, não se constituía, conteúdo, no único bloqueio a uma crítica da ontologia moderna. Antes disso, desenvolveu-se uma segunda onda de crítica no interior desta ontologia que se sobrepôs à primeira. A segunda onda foi sustentada, de um lado, pelo movimento de trabalhadores e, de outro, pelos movimentos de libertação na periferia do mercado mundial, dos quais fazem parte a revolução russa e os movimentos e regimes anticolonialistas. Em todos estes movimentos históricos foi elaborada oficialmente uma crítica fundamental do capitalismo que se articulava em muitos aspectos mediante o recurso à teoria marxista. No entanto, também esta segunda onda limitou-se fundamentalmente à moderna ontologia do sistema de produção de mercadorias e, com isso, às suas categorias; a retomada de Marx restringiu-se à observação dos componentes desta ontologia retidos pelo próprio Marx, enquanto ficaram emudecidos ou foram ignorados todos os demais momentos de sua teoria que iam além disso.
Original: DER ONTOLOGISCHE BRUCH. Vor dem Beginn einer anderen Weltgeschichte in www.exit-online.org

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