quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A crise geral - (A Ruptura Ontológica - Parte 7 de 7)



A não-simultaneidade no seio da moderna ontologia produziu um declive do desenvolvimento em termos geográficos ou no próprio interior da sociedade, que reclamava um posicionamento tanto da crítica aparentemente radical como da crítica liberal e do esclarecimento. O movimento dos trabalhadores dos países ocidentais, as revoluções do Leste e os movimentos de libertação do hemisfério sul representam apenas variantes distintas de uma "modernização recuperadora" no contexto dessa desigualdade. Tratava-se de ascender ao sistema de produção de mercadorias, e não de sair dessa ontologia histórica. Essa opção podia ser positivamente ocupada pelas noções de "progresso" e "desenvolvimento", enquanto o sistema mundial como um todo dava espaço para uma subsequente “modernização da modernidade".



Este espaço para o desenvolvimento não existe mais. Na terceira revolução industrial, a ontologia moderna depara-se com limites históricos. Tornam-se obsoletas mesmo as categorias nas quais transcorreu o progresso total de modernização, como mostram corn clareza o "trabalho", a nação e a política. Com isso expirou também a não-sirnultaneidade no interior do sistema de produção de mercadorias. Mas isso ocorreu não porque todas as sociedades deste mundo teriam alcançado o mais alto nível de desenvolvimento moderno ou porque tenham sido nivelados os declives ou, ainda, porque tenha sido alcançada uma positiva simultaneidade planetária em níveis equivalentes. A não-simultaneidade expirou em razão do fato de que o sistema de produção de mercadorias estaria afundando na crise ontológica. Tanto faz o nível de desenvolvimento alcançado pelas sociedades em particular: todas elas são apanhadas em mesma medida pela crise ontológica ou categorial.

As diferentes sociedades encontram-se ainda em situações totalmente diversas nos planos material, social, político etc. Muitos países estão apenas nos primórdios do "desenvolvimento" moderno; outros estão empacados a meio caminho. Mas o declive não mobiliza nenhuma dinâmica adicional de "modernização recuperadora". Ele gera, ao contrário, uma dinâmica de barbárie. A crise ontológica produz uma simultaneidade negativa, uma "decadência em termos mundiais" das categorias modernas, que transcorre sucessivamente sob condições inalteradas de desigualdade. Não existe volta para a antiga sociedade agrária, mas, uma vez ocorrido, o desenvolvimento nas formas ontológicas modernas passa a ser desmontado. Indústrias inteiras são paralisadas; continentes inteiros são deixados à própria sorte; e, mesmo nos países centrais do Ocidente, a crise crescente passa a ser apenas administrada sem perspectiva de mudanças.

[...]

Em todo lugar, a mesma crise ontológica paralisa a crítica ainda mais do que antes. A crítica socialista do capitalismo, imanente em suas categorias e afirmativa ontologicamente, possui paradigmas oriundos da não-sirnurtaneidade; ela está tão profundamente enraizada que nada mais pode ser pensado. A reiteração fantasmagórica de suas concepções cai no vazio porque não é alcançado o nível exigido da crítica categorial e da abrangente ruptura ontológica. De certa maneira, tornaram-se conjuntamente reacionários o liberalismo, o conservadorismo e o marxismo tradicional. As ideologias da modernização decompõem-se e misturam-se umas às outras. Esclarecimento e contra-esclarecimento tornam-se idênticos. Hoje existem comunistas anti-semitas e liberais racistas, iluministas conservadores, socialistas radicais de mercado. Os movimentos sociais recentes mostram-se até agora impotentes diante dos problemas da crítica ontológica e da simultaneidade negativa. Apesar de serem distintos os pressupostos herdados do passado, estes problemas podem ser formulados e solucionados apenas por urna sociedade planetária.

Original: DER ONTOLOGISCHE BRUCH. Vor dem Beginn einer anderen Weltgeschichte in http://www.exit-online.org/

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