
O autor Bruce Sheiman se aproxima do debate entre teístas e ateus sobre a existência de deus, sob um ponto de vista único.
Sheiman cunhou um termo para diferenciar-se como ateu (aquele que não acredita em deus) de Richard Dawkins e seu fã-clube: os tais são antiteístas, ou seja, pessoas com uma agenda ateísta militante.
Antiteístas não só rejeitam a deus, mas estão ativamente numa campanha para erradicar a fé dos outros. É bom saber a diferença.
Bruce Sheiman não acredita em deus, mas ele acredita na religião. Deixando de lado a questão de saber se deus existe, é claro que os benefícios da fé superam seus custos, argumenta em seu novo livro: An Atheist Defends Religion: Why Humanity is Better Off with Religion Than Without It (Um Ateu Defende a Religião: Por que a humanidade está em melhor situação com a religião do que sem ela - Alpha Books, ainda sem tradução para a língua portuguesa).
Em sua introdução ao livro, sustenta que a melhor maneira de julgar o caso de forma convincente para o ateísmo não é por argumentos que tentam como intuito provar a existência de deus e sim demonstrar a contribuição duradoura da religião.
A "questão de deus" não pode ser resolvida a contento das partes em conflito, afirma o autor. Sheiman chama a considerar o valor da própria religião. Ele não procura provar que deus existe, mas defende a religião como uma instituição cultural.
"Eu não sei se alguém vai ser capaz de me convencer de que deus existe", Sheiman disse em uma entrevista, "mas eles podem me convencer de que a religião tem um valor intrínseco".
Um dos benefícios da religião é dar sentido à vida. De acordo com Sheiman, estamos conscientes de que vivemos em um mundo de grande poder e potencialidade, mas, em contraste com os animais que só vivem em uma relação utilitarista com o mundo, os seres humanos estão conscientes de que este mundo existe fora de nós mesmos.
O autor, em seguida, relata alguns exemplos de sociedades primitivas que procuravam dar sentido a suas vidas por meio da religião. Os mitos e rituais dos povos ajudaram a conectar a realidade mortal com o "eterno e espiritual".
Fé fornece significado e propósito para milhões de crentes, inspira as pessoas a cuidarem dos outros e construir comunidades, dão-lhes uma sensação de união com uma força transcendente, e lhes proporcionam inúmeros benefícios à saúde, diz Sheiman. Além disso, a força dinamizadora por trás de muitas realizações na civilização ocidental tem sido a fé, argumenta Sheiman, embora admitindo que ele limita sua análise, em sua maior parte, à religião ocidental moderna.
Sheiman cita uma pesquisa que demonstra a forma com que a atividade religiosa está associada a uma maior interação social. Assim como a religião edifica a comunidade no âmbito moral.
"Mais do que qualquer outra instituição, a religião merece o nosso apreço e respeito, porque tem persistentemente encorajado as pessoas a se importam profundamente - consigo mesmas, com os outros, com a humanidade e com o mundo natural - e esforçar-se pelos mais alto ideais humanos capazes de se imaginar", escreve Sheiman.
A crença na bondade é intrínseca à todas as religiões, explica Sheiman. Os ateus muitas vezes não compreendem a moral religiosa, ele argumenta. Não é uma simples recompensa ou sistema de punição. "O mais cínico vê na religião uma obediência cega à autoridade moral e um sistema de controle opressivo comportamental", comentou.
Enquanto alguns adeptos religiosos exibem uma orientação autoritária, isso também pode ocorrer com muitas pessoas não-religiosas, conclui Sheiman. Para muitas pessoas, deus é visto como um pai amoroso e dono de superioridade moral à qual os seres humanos aspiram, destacou.
Uma contribuição da religião para a sociedade é a noção cristã de que os seres humanos são feitos à imagem de deus, explica Sheiman. Desde que os seres humanos estão destinados a compartilhar da natureza divina devem ser respeitados como filhos de deus.
A religião também fornece uma base sólida para o comportamento moral através de uma adesão a valores absolutos. Em contrapartida, observa Sheiman, sem religião as pessoas podem ter moral. Contudo, os preceitos morais são feitos por um homem falível e não substancial, pois envolve opiniões pessoais ou mesmo interesse pessoal.
Isso leva a crer que nossas mentes acreditam em uma verdade relativa. Como humanos nós assinalamos que o imperativo moral não depende de deus, então ele não é absoluto e permanece relativo.
A ciência por si só não pode levar a uma cultura moral, ele continua. "O certo e o errado não são explicados pela física ou biologia", afirma.
"A religião torna-se assim a mais importante fonte cultural e institucional dos princípios éticos, precisamente porque ela é considerada acima do capricho humano", acrescenta.
Tal visão leva a inúmeros atos de sacrifício e compaixão a cada dia, comenta. Fatos e estudos sociológicos demonstram que as pessoas religiosas têm mais carinho, compaixão e dão mais dinheiro para a caridade do que as não-religiosas. Esta prática não está restrita a uma religião em particular, ressalta o autor.
A ciência moderna, em muitos casos, exclui a religião a fim de explicar o mundo e o universo. Contudo, Sheiman aponta que nós podemos aceitar o que a ciência diz sobre o funcionamento do universo, porém, as constatações não implicam em nossas vidas.
Em outro capítulo do livro, Sheiman relata como a religião esteve detrás do progresso do mundo ocidental, nos caminhos da democracia, liberdade, ciência e tecnologia.
Ao longo do tempo, temos crescido como civilização em grande parte devido à religião, argumenta. Isto nos leva a concluir que a religião global teve um impacto positivo, conclui.
Seria possível imaginar a alternativa de uma trajetória de progresso sem religião. Mas isso seria inacreditável, de acordo com Sheiman. Os historiadores não podem identificar qualquer outra força cultural tão robusta como a que a religião poderia ter realizado ao longo de civilização.
Sheiman também critica a leitura seletiva da história, realizada por parte de alguns ateus, que é demasiadamente eficiente para atribuir os aspectos negativos da história religiosa, embora raramente admita a dívida da civilização com a religião.
A religião sempre teve defensores cultos, ateus que falaram sobre os benefícios sociais da fé. O filósofo Platão , por exemplo, não acreditava no panteão grego, mas argumentou que outras pessoas deveriam acreditar, para o bem da sociedade. Ele chegou a propor a criminalização da descrença na existência de divindades e da imortalidade da alma.
Nos últimos anos, o cenário cético tem sido dominado pelos "neo-ateus", os "antiteístas" - Christopher Hitchens , Richard Dawkins , Sam Harris e outros - que argumentam em livros "best-sellers" que a fé religiosa é uma doença mental, ou coisa pior.
Mas agora, um novo grupo de descrentes está a assumir o cenário, argumentando que embora eles mesmos possam não ter fé, há poucas razões para menosprezar os crentes ou empurrar a religião para fora do âmbito público. O vai e vem de debates sobre a existência de deus tem derramado um pouco de luz - porém mais calor do que luz-, enquanto os principais problemas do mundo são cada vez maiores.
Os antigos ateus diziam que deus não existia. Os chamados "neo-ateus" ou "antiteístas" dizem que deus não existe, e se viciaram em falar isso. Agora, o novo "neo-ateísmo" - chamado pelos críticos de "Ateísmo 3.0" - ainda diz que deus não existe, mas talvez a religião não seja tão ruim.
Fonte: UsaToday, examiner.com


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